A Feira Cultural de Primavera, realizada neste mês em Manhuaçu, Minas Gerais, ganhou brilho especial com a presença da escritora e artista olástica Núbia Oliveira. Reconhecida por suas pinturas sobre tela e artesanatos barrocos, Núbia apresentou ao público não apenas sua arte visual, mas também falou sobre o lançamento brevemente de seu novo livro, uma obra profundamente autobiográfica que narra sua trajetória marcada por dor, espiritualidade e superação. E apresentou obras de seu esposo, o artista plástico holandes, Léo Ficher.



“Lalinha”: uma infância entre sombras e poesia
O livro, intitulado Lalinha, mergulha na infância da autora, vivida sob condições precárias ao lado dos pais e da irmã. A protagonista, Lalinha, é uma criança pobre que enfrenta a violência doméstica imposta por Matusalém, o pai — figura central e sombria que, além de agressivo, se envolve com forças sobrenaturais para alcançar seus objetivos. A narrativa mistura realidade e simbolismo, revelando como a arte e a espiritualidade foram refúgios para Núbia desde cedo.



Da dor à criação: a força da ancestralidade
Nascida em 20 de agosto de 1969, em Itaperuna (RJ), Núbia Oliveira da Silva recebeu o nome em homenagem à cantora Núbia Lafayette, favorita de seu pai. Após anos de violência familiar, ela e a irmã Lívia buscaram abrigo na casa dos avós em Carangola (MG). Lá, o avô — um português devoto da Umbanda e curandeiro — tornou-se figura essencial em sua formação, transmitindo ensinamentos que conectavam espiritualidade, cura e resistência.



Umbanda, exclusão e identidade
O livro também aborda o conflito religioso vivido pela família. Enquanto o avô cultivava a Umbanda como prática de cura e fé, o pai de Núbia realizava rituais de São Cipriano (Capa Preta), o que gerou confusão e preconceito por parte da sociedade. A intolerância religiosa e a marginalização marcaram profundamente a autora, que vivenciou a exclusão de forma direta e implacável — experiências que agora ganham voz e forma em sua obra literária e artística.



Arte como libertação
Na Feira Cultural, Núbia emocionou o público ao compartilhar trechos de Lalinha e expor suas telas vibrantes, que misturam barroco, espiritualidade e memórias. “Minha arte é minha oração. Meu livro é meu grito”, declarou a artista durante o evento.



A exposição e o lançamento do livro reafirmam Núbia Oliveira como uma voz potente da arte brasileira contemporânea — uma mulher que transforma dor em beleza, exclusão em resistência, e memória em legado.





