Por Lídia Maria Nazaré Alves
Há momentos em que a escola deixa de ser apenas o lugar onde se ensina e se aprende e passa a ser, também, o lugar onde a cultura se encontra, se reinventa e ganha corpo. Foi assim na noite de 27 de agosto de 2026, na EVEC –Manhumirim, Direção de Jander Kenedy Nogueira Soares e Coordenação de Loana da Fonseca Cávoli quando a comunidade escolar se reuniu para viver o projeto “Entre Versos e Canções: Cultura e Sociedade ao Longo das Décadas”.



Mais do que uma sequência de apresentações, o festival foi uma viagem por diferentes tempos, atravessada pela literatura, pela música, pelo teatro, pela dança e pelas diversas formas de expressão artística. A proposta nasceu do desejo de aproximar os estudantes das manifestações culturais e dos contextos históricos que ajudaram a constituir diferentes gerações.



Há alguns anos, participo, como visitante, dos eventos promovidos pela EVEC. É uma escola dinâmica, que frequentemente abre suas portas para a cultura e transforma seus espaços em lugares de encontro, criação e celebração. Já acompanhei quadrilhas, manifestações artísticas e outros momentos em que os estudantes revelaram seus talentos. Há sempre algo de novo nesses encontros, porque a escola parece compreender que educar também é possibilitar ao aluno a experiência de produzir cultura.
O festival deste ano, entretanto, trouxe uma particularidade: o multiculturalismo. Ao percorrer diferentes décadas e linguagens, os estudantes foram convidados a reconhecer a diversidade das manifestações culturais, percebendo que cada tempo carrega seus sons, seus gestos, suas roupas, suas histórias, seus valores e seus modos de compreender o mundo.
E, como visitante, uma coisa me chamou especialmente a atenção: o quanto os alunos desenvolveram suas performances.



A noite começou com a força do heavy metal. Bateria e guitarra irromperam no palco em uma apresentação de grande intensidade, exigindo dos músicos domínio técnico, sintonia e, sobretudo, energia. A bateria, firme do primeiro ao último compasso, sustentou o ritmo com precisão e impressionante resistência, enquanto a guitarra respondia com igual vigor, fazendo o som ocupar todo o espaço. Não houve hesitação nem perda de fôlego: os dois músicos mostraram que a força de uma apresentação também nasce da entrega de quem está no palco. Foi uma abertura potente, daquelas que despertam a plateia e anunciam que a noite seria, antes de tudo, uma celebração da arte em suas múltiplas formas.
No ano passado, A Bela e a Fera arrancou-me de dentro de mim. Havia naquela apresentação uma força capaz de nos deslocar do lugar de espectadores e nos lançar para dentro da narrativa. Este ano, foi Auto da Compadecida que me mostrou o quanto os estudantes estavam comprometidos com a tarefa cultural que lhes fora confiada.



O palhaço que abriu a apresentação transformou o palco em picadeiro. De repente, já não estávamos apenas diante de uma encenação: estávamos diante de um espetáculo. O palco ganhou movimento, cor, comicidade e presença. Fomos às alturas.
Em outro momento da noite, uma garota, com sua dança inspirada nos anos 1960, ocupou o centro do palco e, como se carregasse uma luz própria, irradiou-a para todo o ambiente. Não era apenas uma coreografia. Era presença. Era o corpo contando a história de uma época, fazendo a memória daquele tempo reviver diante dos nossos olhos.
E as apresentadoras, Loana e Marcela, também não ficaram à margem da cena. Com suas roupas inspiradas nos anos 1960, integraram-se ao próprio cenário, mostrando que, em um espetáculo como aquele, cada detalhe pode participar da construção de sentidos. Figurino, música, movimento, voz e presença se entrelaçavam para produzir uma experiência estética.



Ao longo da preparação, os estudantes pesquisaram épocas, obras literárias, músicas, artistas, costumes e modos de vestir. O conhecimento, assim, não permaneceu restrito às páginas dos livros ou às explicações da sala de aula: transformou-se em cenário, figurino, movimento, voz, música e presença.
É talvez essa uma das maiores riquezas de um projeto interdisciplinar: permitir que o aluno compreenda que os saberes não existem isoladamente. Literatura conversa com História; música dialoga com a memória; o corpo também conta histórias; a imagem produz sentidos; e a arte pode tornar visível aquilo que, muitas vezes, aprendemos apenas de maneira abstrata.



O próprio projeto foi concebido nessa perspectiva, envolvendo Língua Portuguesa, Artes, Literatura, Música, História, Educação Digital e Língua Inglesa, por meio de pesquisas, leituras, ensaios, produção de figurinos e cenários e apresentações culturais.
E foi justamente no palco que todo esse trabalho encontrou sua forma mais visível.



Obras como A Menina do Narizinho Arrebitado, O Pequeno Príncipe, O Menino Maluquinho, Extraordinário, Auto da Compadecida, Percy Jackson e Felicidade Clandestina foram incorporadas à proposta, aproximando literatura e experiência artística. Cada apresentação, a seu modo, estabeleceu uma ponte entre aquilo que os estudantes estudaram e aquilo que foram capazes de criar.
Os familiares, por sua vez, puderam assistir, com evidente encantamento, às performances dos filhos. Havia, no olhar de muitos deles, o orgulho de reconhecer nos jovens que estavam diante do palco não apenas seus filhos, mas também sujeitos capazes de criar, interpretar, emocionar e ocupar um espaço de expressão.
O festival revelou, assim, algo que nem sempre aparece nos resultados tradicionais de uma atividade escolar: o processo de construção coletiva. Antes de subir ao palco, houve pesquisa, criação, ensaio, escolhas, dificuldades, colaboração e descobertas. O projeto valorizou participação, criatividade, organização, comprometimento, oralidade e trabalho em equipe.
E foi esse comprometimento que se tornou perceptível para quem estava na plateia.
No encerramento, Luís Felipe, em uma performance de um inesquecível Michael Jackson, levou a noite a outro patamar. Seu corpo, seus gestos, sua dança e sua presença cênica recuperaram a força de um artista que atravessou gerações. Foi uma apresentação vibrante, que fechou o evento com uma espécie de chave de ouro avermelhado, como se a própria intensidade da performance anunciasse que aquela noite chegava ao fim, mas não terminaria na memória de quem a viveu.



Talvez a imagem mais bonita daquela noite não esteja apenas nas apresentações prontas, mas naquilo que elas revelaram: alunos produzindo, professores orientando, diferentes áreas do conhecimento se encontrando, familiares se emocionando e uma comunidade escolar compartilhando uma experiência cultural. A escola, quando produz cultura, deixa de ser apenas espectadora da sociedade e passa a participar ativamente de sua construção. É nesse sentido que projetos como Entre Versos e Canções ultrapassam a dimensão de uma atividade avaliativa. Eles criam experiências, despertam sensibilidades e ajudam os estudantes a perceber que aprender também pode significar criar, interpretar, sentir e compartilhar.
E talvez seja justamente aí que resida a grandeza da arte. Ela não precisa necessariamente ensinar uma lição objetiva. Às vezes, sua missão é simplesmente nos arrancar do lugar habitual, provocar encantamento, despertar emoções e permitir que, por alguns instantes, esqueçamos a pressa cotidiana para contemplar aquilo que o outro foi capaz de criar.
Fruição.
Foi isso que experimentei naquela noite.
Entre versos, canções, danças, personagens, figurinos e performances, a EVEC nos ofereceu mais do que um festival. Ofereceu-nos uma experiência de encontro com a arte e com a cultura.
Porque talvez seja essa a função mais bonita da arte: fazer o tempo voltar por alguns instantes, para que possamos reconhecê-lo e, ao reconhecê-lo, compreender melhor quem somos.
Na EVEC, naquela noite de agosto, a escola se fez palco. E o palco, por sua vez, tornou-se lugar de encontro entre passado e presente, entre conhecimento e emoção, entre aqueles que ensinam e aqueles que aprendem.
Entre versos e canções, a cultura encontrou morada na escola.



E, naquela noite, a arte cumpriu sua missão mais essencial: a fruição. Parabéns aos professores de linguagens: Lidiene Rodrigues, Vanderson e minhas duas ex- alunas Marcela Assis (E.E. Alfredo Lima) e Lorena da Fonseca Cávoli (UEMG)
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Reportagem: Lidia Maria Nazaré Alves. TNTV NEWS.





